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22 abril 2013

Fernando Távora


Fernando Távora (1923-2005) é um dos fundadores da chamada "Escola do Porto" e uma das grandes referências da história da arquitetura portuguesa.

Artigo original “Fernando Távora” de 2013/4/22 | Reescrito e  atualizado em 2018/10/27 | Republicado em:
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Percurso


Bio

Fernando Távora nasce no Porto em 1923, no seio de uma família nobre. Sempre gostou de história e tinha apetência pelo desenho pelo que decide ser arquiteto. Contraria, assim, a vontade do pai que queria que seguisse engenharia civil, que considerava uma profissão mais prestigiante. Faz a sua formação na Escola de Belas Artes do Porto. Frequenta, primeiro, o Curso Especial de Arquitetura e, depois, o Curso Superior de Arquitetura, que conclui em 1952.
Em 1947, publica o ensaio "O problema da Casa Portuguesa". Nele fala sobre a necessidade de inventariação da arquitetura popular portuguesa.

Percurso profissional

No início da sua carreira Fernando Távora trabalha como técnico da Câmara Municipal do Porto. Tem a cargo o projeto de bairros sociais, tais como o Bairro de Ramalde. Trabalha igualmente como consultor da Câmara de Gaia,  da Comissão de Coordenação da Região Norte e do Gabinete Técnico Local de Guimarães.

“Trabalhar com o arquitecto Távora foi melhor do que qualquer estágio” Álvaro Siza in Público

Abre o seu próprio atelier, no qual trabalhou Siza enquanto estudante e de quem se torna grande amigo. Paralelamente, exerce atividade docente, estando na génese da Escola do Porto e, mais tarde, de Coimbra.

Atividade docente

Fundador da chamada Escola do Porto [A Escola do Porto], foi professor de Álvaro Siza Vieira, Alcino Soutinho, Eduardo Souto de Moura e de várias gerações de arquitetos, até à sua aposentação em 1993.

“Fernando Távora foi ... meu professor, como de Siza Vieira, e, no final do curso, as relações fundiram-se e passaram a amizade e companheirismo. Recordo as enriquecedoras viagens que com ele fiz, nomeadamente à Grécia, ao Egipto ou à Turquia. Era um pedagogo de grandes saberes.” Alcino Soutinho

A sua carreira docente está ligada a várias institituições de ensino, designadamente: Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP); Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP); Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra (DARQ-UC), onde foi homenageado com a atribuição do Doutoramento Honoris Causa em 1993 e Escola de Arquitetura da Universidade do Minho (EAUC.

Participação nos CIAM

Entre 1951 e 1959 participa, como delegado português, nos Congressos Internacionais da Arquitetura Moderna (CIAM). Lá conhece os mestres da arquitetura moderna, como Le Corbusier. Esta participação proporciona-lhe desenvolver um pensamento crítico sobre a arquitetura portuguesa da época, de cariz supostamente nacionalista e ligada ao regime salazarista.

Entretanto, em 1955, integra a equipa responsável pelo "Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa"um estudo sobre a arquitetura em Portugal, promovido pelo Sindicato Nacional dos Arquitetos e publicado em 1961. O estudo estava dividido por regiões, cabendo a Távora a região do Minho e Alto Douro.

A importância de viajar

Ao longo de toda a sua vida Távora faz inúmeras viagens, que lhe permitiram conhecer de perto diferentes "arquiteturas", feitas em tempo, espaços e culturas distintas. Távora considera que um bom conhecimento da história da arquitetura está na base de um bom projeto. Portanto, nada melhor do que poder ver de perto e sentir os edifícios que fazem parte da história da arquitetura. É essa importância de viajar que procura incutir nos seus alunos e colaboradores, contando de forma entusiasmada e detalhada os relatos das suas viagens. Em 1960, ganha uma bolsa da Fundação Gulbenkian para viajar para os EUA e Japão.

Távora no Parthenon na Grécia em 1976. Na fotografia Alexandre Alves Costa, Sérgio Fernandez, José Grade, Alcino Soutinho, Fernando Távora e Álvaro Siza. Fotografia: Público

Arquitetura

Fernando Távora é autor de uma vasta obra física, que cruza diferentes escalas, desde habitações até estudos urbanísticos, sendo pioneiro na área da reabilitação urbana.

A influência do Modernismo

Nas suas primeiras obras, como por exemplo, no desenho da Unidade Residencial de Ramalde, de 1952,  há uma clara influência do modernismo. Neste projeto a disposição paralela dos blocos habitacionais, separados por zonas verdes e tirando partido de uma boa orientação solar, são exemplos da aplicação dos princípios formulados na Carta de Atenas.

Também o uso do betão aparente, usado nomeadamente no Mercado de Vila da Feira e no Pavilhão de Ténis da Quinta da Conceição, é outro traço comum à arquitetura moderna internacional.

A importância do sítio

"Em cada edifício deve ser usado o que é próprio para esse edifício." Távora Mas, embora a sua arquitetura se baseie nos princípios do modernismo, Távora vai mais longe dando especial importância ao sítio, à história, às preexistências e à materialidade da arquitetura local. Assim, modernidade e história fundem-se dando lugar a uma arquitetura que, não deixando de ser moderna, é verdadeiramente integrada no sítio. O seu filho, também arquiteto, Bernardo Távora, destaca a capacidade que o pai tinha de se tornar invisível nas suas obras.

Refira-se, como exemplo, o Mercado de Santa Maria da Feira,  O mercado detém um desenho assumidamente moderno, onde se destacam as palas inclinadas que formam a cobertura. Contudo, o edificado procura relacionar-se com a envolvente e aproveitar a morfologia do terreno.

O pavilhão de ténis da quinta da Conceição, é outro exemplo em que  combina traços do movimento moderno, como a planta em open space e planos soltos, com elementos construtivos tradicionais, como por exemplo asnas de madeira e cobertura em telha.

Távora defende igualmente que, se possível, a arquitetura deve ser feita para as pessoas. Deste modo, o cliente deve ter um papel participativo.

"Faço casas para as pessoas." Távora

Das casas que Távora projetou a mais emblemática é a Casa em Ofir. Fernando Távora define-a como um composto, semelhante aos da química. Assim, a Casa em Ofir é composta por: a família que iria habitar a casa; as características naturais do terreno; a presença de vento forte; os materiais locais; a falta de especialização da mão-de-obra local; e, por último, a cultura do arquitecto.

A importância da preservação e reabilitação do património

Távora desempenhou um papel essencial na introdução da noção de valor do património histórico e da necessidade da sua preservação e reabilitação, não só como intervenções isoladas mas abrangendo conjuntos, como os centros históricos. Torna-se portanto pioneiro na área da reabilitação urbana.

Cite-se como exemplo paradigmático a requalificação do centro histórico de Guimarães, de que Távora é autor, e que é classificado como Património da Humanidade pela UNESCO, em 2001.

Távora também intervém em edifícios históricos, como por exemplo, a Pousada de Santa Marinha em Guimarães, o Palácio do Freixo e o Museu Soares dos Reis, ambos no Porto. Outro exemplo é o restauro da Casa da Rua Nova em Guimarães. Trata-se de uma construção típica vimaranense medieval adulterada ao longo dos tempos. A sua recuperação é uma operação delicada, que obriga à desmontagem parcial da estrutura em madeira e a reconstituição total da sua fachada posterior. Esta intervenção de Távora com o GTL de Guimarães constitui um modelo de reabilitação, procurando, assim, incentivar-se o investimento privado na regeneração urbana.

Em síntese, pode afirmar-se que cada projeto de Távora é uma obra única, adaptada aos clientes e que congrega criatividade, atenção ao sítio, rigor técnico e funcionalidade.


Obras


Unidade Residencial de Ramalde 

Porto, 1952-60

Mercado de Santa Maria da Feira 

Vila da Feira, 1954-59 Fotografia: wikipedia

Casa em Ofir

Ofir, 1956




Parque Municipal da Quinta da Conceição - Pavilhão de Ténis

Matosinhos, 1957

Escola Primária do Cedro 

Vila Nova de Gaia, 1958-60

Reabilitação do Convento/Pousada de Santa Marinha 

Guimarães, 1972-85

Reabilitação do Centro Histórico de Guimarães - Casa da Rua Nova

Guimarães, 1985-87

Remodelação e ampliação do Museu Soares dos Reis 

Porto, 1988-2001

Arranjo Urbanístico da Praça 8 de Maio 

Coimbra, 1990

Anfiteatro do Inst. Politécnico de Viana do Castelo 

Viana do Castelo, 1990-92

Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Coimbra 

Coimbra, 1991-2000

Anfiteatro da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra 

Coimbra, 1994-2000

Ampliação do Parlamento - Palácio de S. Bento 

Lisboa, 1994-99 Fotografia Assembleia da Republica

Casa dos 24 - Recuperação dos Antigos Paços do Concelho 

Porto, 1995-2003

Restauro do Palácio do Freixo

Porto, 1996-2003 Fotografia Wikipedia

Escola de Arquitetura da Universidade do Minho 

Guimarães, 2004

Arranjo Urbanístico da Praça da Liberdade 

Viana do Castelo, 2013


Prémios

  • Prémio Nacional de Arquitetura, em 1988, pela Requalificação da Pousada de Santa Marinha em Guimarães
  • Prémio de Arquitetura da Fundação Calouste Gulbenkian
  • Prémio “Europa Nostra” pela casa da Rua Nova em Guimarães 1985
  • Prémio Turismo e Património 85
  • Prémio de carreira da 1.ª Bienal de Arquitetura e Engenharia IberoAmericana de Madrid, em 1998.

Prémio Fernando Távora

Em homenagem ao arquiteto, a Ordem dos Arquitectos (OA-SRN), em 2005, instituiu o Prémio Fernando Távora que anualmente, atribui uma bolsa de viagem à melhor proposta de viagem apresentada por arquitetos inscritos na OA.


*INFO

Revisitar Fernando Távora, Documentário sobre Fernando Távora - Arquivo RTP


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Artigo original “Fernando Távora” de 2013/4/22 | Atualizado 2018/10/27